Vidas Refugiadas volta a São Paulo com o retrato de gênero no refúgio

Exposição fotográfica mostra o cotidiano de mulheres refugiadas no Brasil. Segundo a idealizadora do projeto, o intuito é mostrar o rosto feminino do refúgio e refletir sobre os desafios para a efetivação de direitos

Por Géssica Brandino

Foram mais de 365 dias, oito capitais e mais três cidades no sudeste, sul e nordeste, com histórias que se multiplicam e laços fortalecidos na defesa de direitos. Para encerrar o primeiro ciclo dessa jornada, a exposição “Vidas Refugiadas” volta a São Paulo a partir de amanhã (18/3), às 11h, no Museu da Imigração, com o intuito de difundir a mensagem de gênero no contexto do refúgio.

Vidas Refugiadas_cartaz divulgacao

Idealizado pela advogada Gabriela Cunha Ferraz junto ao fotógrafo Victor Moriyama, o projeto retrata as histórias de oito mulheres refugiadas da Nigéria, República Democrática do Congo, Burkina Faso, Síria, Angola e Cuba, por meio de 22 fotografias, além de vídeos no site do projeto, com o intuito de mostrar o rosto feminino dessa realidade. Segundo os últimos dados do Comitê Nacional para Refugiados, elas já representam cerca de 30% dos 8.863 refugiados reconhecidos pelo Brasil.

Leia mais: Vidas Refugiadas conscientiza e dá voz às mulheres refugiadas

Pautar a vivência dessas mulheres e contribuir para a conscientização sobre os desafios que cercam a realidade do refúgio são objetivos que têm se concretizado por meio do projeto. Após a inauguração em São Paulo, na véspera do dia da mulher do ano passado, a mostra já esteve em Belo Horizonte, Curitiba, Salvador, Foz do Iguaçu, Porto Alegre, João Pessoa, Rio de Janeiro, Niterói, Brasília e Caruaru.

A advogada Gabriela Ferraz conta que o Vidas Refugiadas superou todas as expectativas, cresceu e tem sido recebido de forma positiva pelo público. “Ao longo do ano foram surgindo várias oportunidades e conseguimos levar o trabalho para várias outras cidades, com a exposição e debates com as refugiadas que fazem parte do projeto. Recebemos mensagens positivas por onde passamos, como em Porto Alegre, em que as pessoas que participaram do debate contaram que a partir dali conseguiram se organizar como coletivo para ajudar na inserção dos refugiados no mercado de trabalho”, conta Gabriela.

De Salvador, ela recorda a emoção da nigeriana Nkeichinyere Jonathan ao ver na cidade e em seus moradores a presença de seu continente. “Numa fala bastante sensível, ela disse que estava muito emocionada por estar naquele espaço e por reconhecer ali os irmãos e irmãs que ela tanto buscava da África e que haviam sido sequestrados dali há anos. Disse que se sentia integrada ali por se perceber parte daquele espaço”, relata a advogada, confessando que foi difícil não chorar naquele momento.

O trabalho de sensibilização se torna ainda mais essencial num contexto em que várias políticas em relação a mecanismos de acolhimento aos refugiados estão paralisadas, analisa. “Infelizmente, hoje em dia temos a política de refúgio no país com retrocessos, sobretudo no número de pessoas reconhecidas no país. A gente tinha uma pretensão de começar a avançar na questão da integração, mas agora percebo que não conseguimos sair da fase de proteção e assistência, que é a etapa número um desse processo”.

Para as mulheres, ela destaca que o acesso à documentação e trabalho são entraves que permanecem. “Há o desafio no acesso ao mercado de trabalho qualificado e que seja compatível com a formação dessa mulher, porque ainda recebemos relatos sobre a inserção de mulheres em serviços de limpeza, mão de obra básica, mesmo para aquelas que já tem nível superior e exerciam suas profissões no país de origem. O outro grande desafio é a documentação. Nesse ano conseguimos reconhecer dois processos de refugiadas que integram o projeto, a Jonathan e da Jeannete, reconhecidas refugiadas ao longo do ano, mas a Vilma, de Angola, e a Maria, de Cuba, aguardam há três anos uma resposta do governo federal. Sem dúvida, esse é um desafio, porque trata do direito mais básico, o de se identificar com um documento. Não podemos falar de integração sem isso”, enfatiza.

A exposição volta a São Paulo com o apoio do Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos (IPPDH) do MERCOSUL. O lançamento será amanhã, às 11h, com a participação de Gabriela e das refugiadas Nckechinyere Jonathan e Maria Illeana Faguaga Iglesias, além de representantes do IPPDH e da prefeitura. A exposição ficará aberta ao público até 28 de maio, de terça à sábado, das 9h às 17h. Aos domingos, o horário de funcionamento é das 10h às 17h. A entrada é franca.

Serviço:

Exposição fotográfica Vidas Refugiadas

Data: 18 de março a 28 de maio de 2017, com entrada gratuita

Local: Museu da Imigração do Estado de São Paulo R. Visconde de Parnaíba, 1.316, Mooca

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