Não foram milhares como a grande mídia insiste em afirmar.

No primeiro dia que seguiu à posse de Donald Trump na Casa Branca, foram mais de um milhão de pessoas, em sua maioria mulheres, que foram às ruas de Washington, Nova Iorque, Boston, Atlanta, Denver, Los Angeles e Chicago.

Simultaneamente, manifestantes demonstraram seu apoio em outras cidades do globo, como Londres, Belfast e Liverpool. Houveram atos também em Berlim, Roma, Paris, Viena e Rio de Janeiro. Em São Paulo, manifestações contra Trump ocorreram na sexta (20/01).

Não por acaso as expectativas de público para a Marcha foram superadas em larga escala. Já no primeiro dia do novo governo, jornais e mídias independentes anunciavam que a página da Casa Branca na internet seguia as medidas antidemocráticas anunciadas por Trump durante sua campanha eleitoral.

Sobre as prioridades do novo governo norte-americano, confira o artigo As primeiras diretrizes e medidas do governo Trump, escrito por Waldo Mermelstein.

Em repúdio aos discursos de ódio e ataques sofridos pelos imigrantes, e contra toda forma de opressão, discursaram mulheres imigrantes, como a palestina ativista Linda Sarsour, e até uma criança latino-americana que protestou “Si, Yo Puedo”.

Para além das mulheres imigrantes que discursaram, outras falas também chamaram a atenção para a necessidade de se proteger os direitos dos migrantes que – por diversos motivos – tem sido obrigados a deixarem suas terras, famílias e culturas. O Guia de Visões e Definição de Princípios publicado pela Marcha das Mulheres avança ainda mais e aponta para desafios concretos:

Quanto à imigração, “rejeitamos a deportação em massa, a detenção de famílias, as violações do devido processo legal e a violência contra migrantes queer e trans”, diz a declaração. “Reconhecemos que o apelo à ação para amar o próximo não se limita aos Estados Unidos, porque há uma crise de migração global. Acreditamos que a migração é um direito humano e que nenhum ser humano é ilegal “

O discurso de Angela Davis, um dos mais aguardados e celebrados da Marcha, também foi marcado pelo lema “Nenhum ser humano é ilegal!”.

Veja abaixo na íntegra o vídeo do discurso de Angela Davis na Women’s March em Washington.

Ao falar para a multidão, relembrou:
“Este é um país ancorado na escravidão e no colonialismo, o que significa, para o bem ou para o mal, a real história de imigração e escravização. Espalhar a xenofobia, lançar acusações de assassinato e estupro e construir um muro não apagarão a história”.

E de forma inspiradora fez o chamado a todas e todos:

A luta para salvar o planeta, interromper as mudanças climáticas, para garantir acesso a água das terras do Standing Rock Sioux, à Flint, Michigan, a Cisjordânia e Gaza. A luta para salvar nossa flora e fauna, para salvar o ar – este é o ponto zero da luta por justiça social.
Esta é uma Marcha das Mulheres e ela representa a promessa de um feminismo contra o pernicioso poder da violência do Estado. E um feminismo inclusivo e interseccional que convoca todos nós a resistência contra o racismo, a islamofobia, ao anti-semitismo, a misoginia e a exploração capitalista’.

Foi possível localizar uma tradução livre da fala – abaixo transcrita –  publicada no Blog CRÔNICASNABELAVISTA.

O Discurso de Angela Davis na Women’s March (tradução)

No dia 21 de Janeiro, centenas de milhares de mulheres mobilizaram-se em diversos países na Women’s March, por justiça social, direitos iguais e contra o avanço conservador no mundo sintetizado na figura de Donald Trump, agora Presidente dos Estados Unidos.

Abaixo uma tradução, livre, que fiz do discurso de Angela Davis, filósofa e feminista negra. Um dos mais marcantes de toda a Women’s March.

“Em um momento histórico desafiador, vamos nos lembrar que nós somos centenas de
Women's March On Washington
foto: the mercury news

milhares, milhões de mulheres, transgêneros, homens e jovens que estão aqui na Marcha das Mulheres. Nós representamos forças poderosas de mudança que estão determinadas a impedir as culturas moribundas do racismo e do hetero-patriarcado de levantar-se novamente.

Nós reconhecemos que somos agentes coletivos da história e que a história não pode ser apagada como páginas da Internet. Sabemos que esta tarde nos reunimos em terras indígenas e seguimos a liderança dos povos originários que, apesar da massiva violência genocida, nunca renunciaram a luta pela terra, pela água, pela cultura e pelo seu povo. Nós saudamos hoje, especialmente, o Standing Rock Sioux.
A luta por liberdade dos negros, que moldaram a natureza deste país, não pode ser apagada com a varredela de uma mão. Nós não podemos esquecer que vidas negras importam. Este é um país ancorado na escravidão e no colonialismo, o que significa, para o bem ou para o mal, a real história de imigração e escravização. Espalhar a xenofobia, lançar acusações de assassinato e estupro e construir um muro não apagarão a história.
Nenhum ser humano é ilegal!
A luta para salvar o planeta, interromper as mudanças climáticas, para garantir acesso a água das terras do Standing Rock Sioux, à Flint, Michigan, a Cisjordânia e Gaza. A luta para salvar nossa flora e fauna, para salvar o ar – este é o ponto zero da luta por justiça social.
Esta é uma Marcha das Mulheres e ela representa a promessa de um feminismo contra o pernicioso poder da violência do Estado. E um feminismo inclusivo e interseccional que convoca todos nós a resistência contra o racismo, a islamofobia, ao anti-semitismo, a misoginia e a exploração capitalista.
Sim, nós saudamos o ‘Fight for 15’. Dedicamos nós mesmas para a resistência coletiva. Resistência aos bilionários exploradores hipotecários e gentrificadores. Resistência a privatização do sistema de Saúde. Resistência aos ataques contra muçulmanos e imigrantes. Resistência aos ataques contra as pessoas com deficiência. Resistência a violência do Estado perpetrada pela polícia e através da indústria do complexo prisional. Resistência a violência de gênero institucional e doméstica, especialmente contra mulheres trans negras.
Direitos das mulheres são direitos humanos em todo o planeta. E é por isso que nós dizemos ‘Liberdade e Justiça para a Palestina!’. Nós celebramos a iminente libertação de Chelsea Manning e Oscar Lopez Rivera. Mas também dizemos ‘Liberdade para Leonard Peltier! Liberdade para Mumia Abu-Jamal! Liberdade para Assata Shakur!’
Nos próximos meses e anos nós estamos convocadas a intensificar nossas demandas por justiça social e nos tornarmos mais militantes em nossa defesa das populações vulneráveis. Aqueles que ainda defendem a supremacia masculina branca e hetero-patriarcal devem ter cuidado!
Os próximos 1459 dias da gestão Trump serão 1459 dias de resistência: Resistência nas ruas, nas escolas, no trabalho, resistência em nossa arte e em nossa música.
Este é só o começo. E termino nas palavras da inimitável Ella Baker: ‘Nós que acreditamos na Liberdade não podemos descansar até que ela seja alcançada!’ Obrigada.”

(Angela Davis, Women’s March. 21.01.2017. Washington/EUA)

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