Morte de mais um migrante vítima de violência expõe dificuldades e ‘decepção’ com Brasil

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Em uma semana, dois migrantes – um haitiano e um senegalês – foram assassinados a facadas no RS | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Fernanda Canofre

Na madrugada da última sexta-feira (6), os policiais militares responsáveis pela segurança do Palácio Piratini acionaram a Brigada Militar depois de ver um homem caído em frente à Assembleia Legislativa. Quando a polícia chegou, encontrou a vítima já morta, com ferimentos de facadas, e sem documentação. Só depois ele veio a ser reconhecido como o senegalês Basirou Diop, de 32 anos.

Basirou estava voltando do restaurante onde trabalhava como garçom quando teria sofrido uma tentativa de assalto, que acabou em sua morte. A hipótese de latrocínio é a linha de investigação que vem sendo adotada pela Polícia Civil até o momento. Sem documentos, ele só foi identificado depois que a Associação de Senegaleses de Porto Alegre foi contatada pela polícia.

“Uma pessoa gente boa, que não tinha problemas com ninguém”, assim o conterrâneo Babacar Kebe, amigo e companheiro de casa de Basirou, o define. Os dois chegaram juntos ao Brasil pelo Acre, em 2014, vivendo todo tipo de dificuldades no caminho até o sul do Brasil. Em Porto Alegre, demoraram para encontrar outros senegaleses e se adaptar à cidade.

Natural de Dakar, do bairro de Pikine, Basirou enviava o dinheiro que conseguia no Brasil para a mulher e os filhos que deixou na capital do Senegal. “É muito dolorido. Quando me ligaram na sexta-feira à noite para falar o que aconteceu, eu não acreditei”, conta Babacar, ainda emocionado.

Basirou se tornou mais um dos migrantes vítimas de violência no Brasil. Embora a Polícia Civil não acredite que a morte esteja vinculada a xenofobia e racismo. “Infelizmente é uma fatalidade acontecer com uma pessoa estrangeira que vem pra cá buscar uma vida nova, mas não tem a ver com essa questão”, afirmou a delegada Roberta Bertoldo, responsável pelo caso.

Porém, para o presidente da Associação dos Senegaleses de Porto Alegre, Mor Ndiaye, não se pode confundir a crise de segurança pública enfrentada pelo país com a violência contra imigrantes. “A violência que os imigrantes estão sofrendo não tem nada a ver com a violência que o Brasil está passando. Essa violência é xenofobia e racismo. Tem outras nacionalidades aqui, não só senegaleses e haitianos, mas o sofrimento para imigrantes negros não é sentido pelos outros. Isso é uma opressão dirigida diretamente a imigrantes negros. Está bem claro”, afirma Mor.

Nos dias que antecederam a morte de Basirou, Mor acompanhou outros senegaleses que trabalham pelo Centro Histórico de Porto Alegre para registrar boletins de ocorrência por ameaças de morte e agressões. Na última segunda-feira (9), ele registrou mais um. Ao todo, foram três BOs em apenas oito dias. As delegacias responsáveis pela região negaram ter recebido qualquer registro até esta terça, mas explicam que entre o registro de uma ocorrência e o recebimento deste na delegacia responsável pode demorar até 20 dias.

Segundo assassinato em uma semana

No país onde armas de fogo matam 2,6 vezes mais jovens negros do que brancos, segundo o Mapa da Violência de 2016, e onde a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado, segundo a CPI do Senado sobre assassinato de jovens, é inegável que os índices de homicídio no Brasil têm cor.

No dia 30 de dezembro, outro migrante, desta vez um haitiano, também morreu esfaqueado em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre, quando estava na própria casa. Apesar de a polícia investigar uma rixa entre Jemps Jannier e outro homem, a principal linha de investigação adotada também é de latrocínio.

A morte de Jannier revelou as dificuldades nos trâmites para conseguir enterrar imigrantes em seus próprios países. “Nesse caso foi bem complicado, porque a família dele é muito humilde, não teria condições de levar o corpo para o Haiti ou de fazer o próprio sepultamento. Então, nós conseguimos com a prefeitura de Gravataí que fosse prestada uma assistência funerária e autorização da família para que ele fosse sepultado aqui, mas só conseguimos porque um amigo dele nos colocou em contato”, conta a advogada Laura Xavier Da Costa Brewster, responsável pelo caso.

No caso de Basirou, os senegaleses de Porto Alegre se reuniram para juntar dinheiro e enviá-lo de volta ao Senegal. Eles aguardam agora a liberação do corpo.

Clima de insegurança e impunidade

Há 9 anos no Brasil, Mor reconhece que esse tem sido o período mais difícil para migrantes aqui. Segundo ele, os senegaleses no Rio Grande do Sul, atualmente, não chegam a 5 mil. Mesmo assim, junto aos haitianos, são eles as vítimas mais frequentes de agressões. “Medo [eles não têm], mas veem que não vale mais a pena estar aqui. A maioria dos migrantes passou por coisas piores, enfrentou a morte antes de chegar aqui. Mas com certeza há muito decepção. A gente esperava que o Brasil fosse um país que iria acolher os imigrantes”, diz ele.

Somado à questão da hostilidade, há ainda um sentimento de impunidade. Outros casos de senegaleses assassinados no Estado nos últimos dois anos, ainda não tiveram conclusão, nem punição aos autores. A Irmã Maria do Carmo Gonçalves, coordenadora do Centro de Atendimento ao Migrante (CAM) de Caxias do Sul, cita um dos crimes, ocorrido no ano passado na cidade, que teve o autor identificado por testemunhas e provas, e mesmo assim o homem segue em liberdade.

“Ficam de fato com aquela sensação de que, ‘ah, é porque somos migrantes’. A gente sabe que a nossa justiça a muito custo se consegue algo quando tem um núcleo familiar organizado que vai em cima, que fica em cima de promotoria. Agora, no caso deles, às vezes não tem um familiar que possa fazer isso. Acaba caindo numa vala comum do mal resolvido”, diz a Irmã Maria do Carmo.

Todo o dinheiro que Babacar consegue juntar hoje, no trabalho de frentista, ele envia para a mãe, no Senegal. Depois de quase três anos no Brasil, ele pensa em ir embora. Com amigos na Europa, nos Estados Unidos e na Coreia, ele já começa a estudar onde pode ser seu próximo destino. Depois da morte de Basirou, Porto Alegre ficou ainda mais difícil para ele. “Todo dia que eu ando nas ruas ou nos ônibus, eu não fico tranquilo”, diz.

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